quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O meu cavalo




O meu cavalo

Cavalgo solitário e só
Num cavalo com corpo de vento
E com os cascos feitos de pó...
Guia-me o sentido desatento
Por entre temporais
Que crescem vivos,
Que crescem sempre mais.

Cavalgo num mundo de sonhos
Por campos de maio
Cheios de alvos anhos
Guardados por pastor catraio
Que vi feito de mim.

Cavalgo num cavalo
Que não tem cor e é meu.
Quis um dia soltá-lo
Para que galopasse em cima do céu...
E ele voltou com corpo de vento
E cascos de pó

O CAVALO



O CAVALO

Teus poros exalam o fumo
Do lar dos deuses de onde vieste.
Rompante de espuma e de lume
És sol quadrúpede ou mar equestre?

Desfilando derramas o ouro
Do teu rio inacabável,
Desmedido relâmpago louro
De um deus equídeo possante e frágil.

Tudo existiu para que fosses
No contraluz desta madrugada
Mitológica proporção perfeita
Em purpúrea bruma recortada.

Pois que te é divino mister
Humanos olhos extasiar
A dúvida é só perceber
Se vieste do sol ou do mar.

domingo, 27 de dezembro de 2009





A música que faz dançar
Deixa inerte muita gente
E o sol que aquece a pele de uns
Queima a de outros e até mata

O dia da felicidade de muitos
Foi um dia de luto para mim
A viagem com que eles sonharam
Acabou na tormenta das ondas

As verdades são como poemas
Qual é a mentira do canto
De uma ave
Qual a verdade da nuvem
A mentira da verdade
Daquilo que é

A música que devia fazer dançar
Não existe
E o sol que não devia queimar a pele?

O poema que devia ser escrito
É como o mar estar errado
Ou uma maçã vermelha ser
Mais verdade do que a chuva


Se fosse possível alguém saber
Como deviam ser a felicidade
E o luto
E os destinos das viagens
A mentira da chuva
A verdade da maçã
E os erros do mar
Não me atreveria a responder
Mas era o primeiro a perguntar.

ando a ficar cego





Ontem fui ter contigo, mas tu não vieste. Fiquei só, sem muito me preocupar para além do facto de não saber o porquê...
Ontem fui ter contigo e não te vi, e apenas pensei, enfim, porque razão virias tu ter comigo, assim... ontem, foi ontem, e só hoje me doeu o sentir... ontem eu não te vi, e hoje não me vejo a mim... afinal, o mal é meu, no meio de tudo isto, acho que ando a ficar cego!

A mesma semana de sempre




eu digo domingo que não me enriquece
ou segunda-feira que não me merece
se é terça-feira não me enaltece
na quarta-feira rezo outra prece
se vem a quinta e a dor me entristece
na sexta-feira quem é que padece?
eu - fazendo rimas em "esses"

(o sábado é santo
mas assim não me parece)

sonhos




Caminho na escuridão
Rumo a um destino traçado
Persigo os meus sentidos absortos
Carregando uma alma amargurada...

Nesta cascata de sonhos
Sou banhada pelos sons do silêncio
Na rota incerta do desejo
Naufrago num mar deserto...

Vontades aprisionadas nas espirais do tempo
Soltam gritos ávidos de liberdade...

Na quimera que me alimentou as palavras
Gemidos ardentes rasgam os meus sentidos...

Sentado à margem da razão,
Invento a cor do teu cheiro
Mergulho no imenso da minha ilusão...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal dos poetas !





E quero como presente

a inspiradora vontade

de renascer a poesia,

ser Natal, e ver o dia

de ser feliz de verdade ,

ser o espirito que eleva

o sonho da humanidade

a fazer do ano todo

um só Natal de bondade,

e esticar a alegria

de dezembro a dezembro

sorrir e brincar todo dia

do jeito que ja nao lembro ,

de deseja...r que o mundo

seja sempre tao legal ,

e sempre ve-lo feliz ,

Feliz você nesse Natal !


A todos os amigos, poetas e poetisas aqui do Recanto, meus mais sinceros votos de um santo e feliz Natal , e um 2010 pleno de realizações !

sábado, 19 de dezembro de 2009

Meu Camarada e Amigo





Meu Camarada e Amigo

Revejo tudo e redigo
meu camarada e amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo e redigo
meu camarada e amigo

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
Meu camarada e amigo.

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
— mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.

O Amigo





O Amigo

1.

Um amigo, o primeiro amigo
dentro da nuvem de um sonho.

O impossível toca-nos as mãos
subitamente — o fogo, a flor concêntrica
de planetas no exílio.

Na terra do silêncio
os frutos caem
de sua própria vontade.

2.

Ao coração das coisas,
ao jugo das cores da memória,
ao pequeno desvio da sombra no deserto,
ao amor que nos alimenta de morte, à morte
que morre connosco
opomos a infinita
constelação
dos nossos sentidos.

Amizade

Uma criança muito suja atira pedras a um cão. O cão
não foge. Esquiva-se e vem até junto da criança
para lhe lamber o rosto.

Há, depois, um abraço apertado, de compreensão e
de amizade. E lado a lado, com a mãozinha muito
suja no pescoço felpudo, lá vão, pela rua estreita,
em direcção ao sol.

PARA OS AMIGOS



Para os Amigos

De entre todos, apenas vós
tendes direito a ver-me
fracassar. Onde caio
entre a vossa irónica
doçura implacável, convosco
partilho o pão e o espaço
e a rapidez dos olhos
sobre o que fica (sempre)
para dar ou dizer.
E de vós me levanto
e vos levo pesando
e ardendo até onde
me ajudais a ser
melhor ou talvez
menos só.